Em cima de um cavalo à beira do Atlântico, a parte útil de um roteiro fica bem pequena. Continue na sela. Olhe por onde vai. Reconheça que o animal parece entender o combinado melhor do que você.
Florianópolis era a segunda metade das nossas duas semanas no Brasil. O Rio tinha nos levado para o alto das montanhas, para a torcida de futebol e para noites de música. Floripa trouxe praias, dunas, barcos de pesca e um trecho de costa aonde podíamos chegar a cavalo sob um céu cinzento. Parecia uma mudança de ritmo promissora.

Os cavalos sabiam o que fazer.
Vários jeitos de ser água
Vista de cima, a ilha parecia ter distribuído suas águas por estados de espírito. O Atlântico quebrava branco nas praias de fora. A Lagoa da Conceição ficava entre os morros. Na costa oeste, abrigada, os barcos podiam passar o pôr do sol sem parecer ter nenhum compromisso urgente. Chamar tudo aquilo de destino de praia era correto mais ou menos como chamar um restaurante de lugar com cadeiras.
Nossas fotos começaram a acumular tons de azul. De um mirante, as casas se espalhavam entre encostas verdes e água. Na costa, grandes pedras interrompiam a areia. Atrás das praias, as dunas claras tomavam conta de tudo de tal maneira que o morro seguinte poderia pertencer a outro país.


O Atlântico estava com a palavra.
Passamos os dias entre essas paisagens, com muitas paradas que faziam mais sentido ali, de pé, do que fariam num cronograma. Um pouco mais de praia. Outra vista. Algo para beber. Era um ritmo fácil de adquirir, embora tomássemos cuidado para não nos esforçar demais chamando aquilo de filosofia.
A Joaquina trazia o oceano para perto, sem nenhuma sutileza. As ondas chegavam em fileiras brancas; as formações rochosas davam uma borda firme à praia, em contraste com tanto movimento. Descemos para a areia e ficamos vendo a água trabalhar. Alguns lugares pedem uma explicação longa. Uma onda quebrando costuma terminar a frase por você.


Outro motivo para parar.
Atrás da costa, as dunas mudavam as condições da caminhada. Uma ladeira que parecia banal lá de baixo virava uma pequena negociação a cada passo. A areia cedia, os sapatos enchiam, o topo se afastava numa velocidade que parecia uma afronta pessoal. Então chegamos ao alto daquelas curvas claras, com os morros no horizonte, e nossas reclamações perderam um pouco da força.

Uma pequena parte de uma superfície enorme.
Havia um prazer meio infantil naquela imensidão de areia. Tiramos fotos, abrimos os braços e ocupamos uma parte muito pequena de uma superfície enorme. Dá para passar uma porção surpreendentemente boa das férias descobrindo jeitos diferentes de ficar em pé num lugar bonito.
As dunas fazem parte de uma paisagem costeira protegida no entorno da Lagoa da Conceição. Isso ganha importância quando se vê como a superfície muda facilmente: vento, vegetação e pés deixam suas marcas. Não precisávamos de uma palestra para perceber a fragilidade. A prova estava nos seguindo ladeira acima.
Barcos na porta de casa
Na Barra da Lagoa, o canal devolveu a escala ao bairro. Barcos de pesca pintados descansavam junto à água, casas se juntavam nas margens e palmeiras ofereciam sombra sem melhorar a produtividade de ninguém. A cena tinha a beleza prática de um lugar onde os barcos estão ali porque alguém usa.


Barcos na porta de casa.
Seguimos a água, passando por cascos e cordas de amarração. O canal mudava do verde para o azul conforme a luz e o que havia no fundo. Perto das pedras, os nadadores faziam a distância até a outra margem parecer administrável. Ficamos satisfeitos em olhar, depois olhar de novo um pouco mais adiante.
Uma mesa ao lado do canal deu um bom motivo para parar de verdade. A bebida chegou num pote de vidro, os barcos continuaram à vista e a tarde seguiu sem precisar de muita supervisão. A grande atividade era sentar perto o bastante da água para ver pequenas coisas acontecerem nela.
“A grande atividade era sentar perto o bastante da água para ver pequenas coisas acontecerem nela.”



A água mudou de ideia sobre a cor.
Essa parte de Floripa foi conquistando a gente aos poucos. Não precisava de grande revelação. Um barco se encaixava num espaço, a luz pegava a proa pintada, alguém caminhava pela margem. A reputação da ilha encheria um folheto, mas o cotidiano muitas vezes era o que nos mantinha na cadeira.
Na costa leste, as praias voltavam a se abrir. De um mirante gramado acima da Praia Mole, a orla se estendia lá embaixo em longas faixas alternadas de areia e espuma. Mais adiante, praias menores ficavam entre pedras e vegetação. Continuávamos encontrando lugares em que a reação sensata era baixar a câmera por um instante.



Baixamos a câmera por um instante.
A costa voltada para o entardecer
Santo Antônio de Lisboa mudou a água outra vez. A costa oeste parecia protegida depois das praias do Atlântico. Árvores se inclinavam sobre a beira d’água, barcos descansavam ao largo e caminhos antigos de pedra nos levavam entre as casas e a baía. A herança portuguesa e açoriana do bairro era visível sem ninguém precisar transformar a tarde numa aula de história.
A chegada dos colonos açorianos no século XVIII ajudou a formar essa parte da ilha, junto com a vida e o trabalho de quem já estava aqui e de quem veio depois. O resultado permanece nos prédios, nas tradições da pesca e na comida. Era mais interessante perceber essas ligações em uso do que tratá-las como decoração de época.


História a caminho da água.
Ao entardecer, os mastros desenhavam linhas finas contra a luz. A água se mexia o suficiente para quebrar os reflexos sem apagá-los. Ficamos enquanto as cores mudavam, aproveitando a sensação rara de que a contribuição mais útil que podíamos dar àquela noite era prestar atenção.

Prestar atenção já era contribuição suficiente.
As refeições davam à ilha mais um jeito de se distinguir. Frutos do mar apareciam com frequência, às vezes em apresentações elaboradas, às vezes com a franqueza reconfortante de um prato que esperava ser comido em vez de discutido. Espetinhos na brasa e travessas para dividir faziam sentar juntos parecer um plano perfeitamente suficiente.
Também encontramos o ritmo de uma mesa comprida: pratos, gente, mais uma porção, a refeição se esticando até já não dar para saber onde cada conversa tinha começado. Esses dias impediam que a viagem virasse apenas uma sequência de vistas. Um lugar fica menos abstrato quando você passa parte do tempo olhando para o outro lado da mesa em vez de para o horizonte.


A ilha tinha outros jeitos de nos convencer.
Uma cidade dentro da ilha
Floripa também tinha ruas para caminhar. A vista do Morro da Cruz juntou prédios, pontes e continente no mesmo quadro, corrigindo a ideia de que tínhamos passado uma semana fora da vida urbana. As praias faziam a cidade ser fácil de esquecer. Lá de cima, ela parecia perfeitamente capaz de seguir em frente sem nossa atenção.

Também havia uma cidade aqui.
Em volta do Mercado Público e do centro histórico, os detalhes nos trouxeram de volta ao chão. Frutas se empilhavam em cores vivas nas bancas. Uma fachada amarela emoldurava uma porta. Pessoas se reuniam entre mesas e balcões com objetivos bem mais imediatos do que fazer turismo. Olhamos em volta, paramos para comer alguma coisa e seguimos na velocidade que a rua permitia.
O Palácio Cruz e Sousa, rosa, causava uma impressão mais formal, com seus ornamentos voltados para o movimento diário. Ali perto, fachadas comuns de lojas e produtos do mercado impediam a cidade de se acomodar no papel de exposição arquitetônica. Havia muito para olhar, mas quase tudo tinha outro trabalho a fazer.



A cidade tinha outro trabalho.
A Ponte Hercílio Luz se destacava sobre a água. Inaugurada em 1926, tinha se tornado tanto uma imagem da cidade quanto uma maneira de chegar a ela. Durante nossa visita, ainda havia obras em torno da estrutura; a reabertura viria depois. Admiramos a ponte do lado da ilha, de onde o aço parecia ao mesmo tempo delicado e complicado demais para ser um projeto de fim de semana de alguém.

Algumas coisas mereciam seu tempo.
As antigas defesas de São José da Ponta Grossa ofereciam uma resposta mais velha à pergunta sobre o que uma ilha precisa. Muralhas de pedra acompanhavam a encosta até o mar. Canhões apontavam sobre uma água que agora parecia ótima para passear. A construção da fortaleza começou em 1740, quando as autoridades portuguesas estavam preocupadas em controlar o acesso à baía, não em melhorar a experiência do visitante.


O projeto original previa menos visitantes.
Caminhamos pelo terreno sob um céu nublado, entre árvores e construções baixas. Na capela, o teto de madeira e o altar modesto ofereciam um espaço mais quieto. A paisagem tornava a fortaleza fácil de apreciar; os canhões lembravam, de maneira útil, que apreciar a paisagem não tinha sido a ideia original.


A paisagem suavizava as defesas.
Deixe o cavalo escolher o ritmo
No Haras Ypê, paredes de madeira, telhados de cerâmica e cavalos à espera anunciavam outro tipo de passeio. A cavalgada passou entre árvores e trilhas de areia em direção ao mar de Moçambique. Da sela, olhávamos o caminho por cima das orelhas do cavalo. É um bom jeito de descobrir quão pouco você está contribuindo para a navegação do dia.


Os integrantes experientes do grupo.
Na praia, o Atlântico estava azul-acinzentado e ocupado. Cavalgamos ao lado dele, tiramos fotos juntos e deixamos o espaço em volta fazer o trabalho. Depois de tantas vistas de mirantes, havia prazer em atravessar uma paisagem devagar, com o chão passando por baixo e sem precisar enquadrar tudo de uma vez.
O tempo ajudou. As nuvens deram à areia e ao mar uma luz suave, compartilhada. Nada precisava ficar mais claro. Até as fotos do passeio pareciam menos a prova de que tínhamos chegado a uma atração e mais um trecho de tempo dentro do qual teríamos ficado de bom grado.
Perto do fim da visita, o Ribeirão da Ilha ofereceu outra mesa demorada junto à água. No Ostradamus, a costa e a refeição eram assuntos intimamente ligados. As baías de Floripa sustentam uma cultura consolidada de criação de ostras. Ali, essa ligação chegava à mesa dentro das conchas.


A baía tinha uma mesa para nós.
O restaurante fica à beira da baía, num bairro cujas casas antigas e tradições marítimas trazem a história da ilha para o presente. Ficamos à mesa enquanto a luz sumia lá fora. Não era preciso transformar o jantar num veredito sobre o melhor de coisa alguma. O prazer já estava ali, na companhia, na água e numa mesa que não tínhamos pressa de deixar.
A essa altura, o Brasil tinha nos dado duas semanas de atenção bem diferentes. No Rio, tínhamos olhado para cima muitas vezes. Floripa levou nossos olhos ao longo da água, para o outro lado da mesa, por uma trilha de areia entre as orelhas de um cavalo.
Tínhamos fotos de sobra. O que elas não conseguiam guardar direito era a pouca vontade que tínhamos de ir embora.

Floripa não tinha pressa de ajudar na despedida.
Visitamos em 2018 · Escrito em 2026
